terça-feira, 22 de janeiro de 2013

SAUVAS


Nota sobre: 


Saúva cabeça de vidro (Atta laevigata) e Saúva limão (Atta sexdens rubropilosa).

Saúva cabeça de vidro (Atta laevigata)


A saúva Atta laevigata constitui uma séria praga em sistemas agrícolas e florestais. Ocorre em todo o país. Os ninhos são grandes e formados por várias câmaras. São insetos sociais, com várias castas.
Danos: Os prejuízos causados pelas formigas cortadeiras são consideráveis. Atacam quase todas as culturas, cortando folhas e ramos tenros, podendo destruir completamente as plantas. As formigas operárias causam grande desfolha principalmente em plantas jovens, sendo consideradas pragas secundárias em culturas estabelecidas. Em áreas de reflorestamento e pomares recém implantados, causam grandes danos, bem como em viveiros de mudas.
Controle: Pode-se fazer arações profundas nas panelas e a eliminação de plantas (gramíneas) nativas, pois as formigas as usam para a criação do fungo que sustenta a colônia. O controle químico deve ser dirigido, visando a eliminação da rainha. Podem ser usados formicidas liquefeitos, iscas granuladas, pó ou através de termo nebulização. A isca granulada dispensa o uso de aplicadores, já que as próprias formigas as carregam para o ninho.


Saúva limão (Atta sexdens rubropilosa)




A Saúva e o nascimento do sauveiro.

Os insetos são o maior grupo de animais da Terra. Com quase 800.000 espécies conhecidas pela ciência e talvez com um número real de alguns milhões de espécies ainda por serem descritas, são mais numerosos que todos os outros grupos de seres vivos juntos!

Com mais de 100.000 espécies, os himenópteros são um dos maiores grupos de insetos. Abrangendo abelhas, vespas e formigas, este grupo possui espécies com uma fascinante organização social. A ordem, cooperação e eficiência do trabalho das formigas são tão famosos que até contos de fadas já retrataram isso com admiração.


Com tantas espécies assim, era de se imaginar que algumas fossem incluídas pelo homem como nocivas a suas atividades. Assim é com uma formiga muito especial, a saúva.


Mas como é organizada uma colônia de formigas? É comum as pessoas se lembrarem de pelo menos uma coisa: há três tipos de formigas em um formigueiro, que são a rainha, as operárias e os soldados.


A rainha é a maior formiga da colônia. Só faz outras atividades quando é jovem e está fundando sua colônia, pois quando madura se dedica exclusivamente a pôr ovos.


As operárias se subdividem em diversas funções. Há muitos tamanhos de operárias, conforme a atividade que exercem. Importante lembrar que, entre os insetos, tamanho não tem nada a ver com idade. Todas as formigas que vemos são adultas e estão com seu tamanho máximo, e suas diferenças se devem à alimentação que receberam durante a fase de larva.


Dentre as saúvas operárias há as que são cortadeiras, coletoras de folhas, transportadoras de alimentos no interior do formigueiro, escavadoras de túneis, lixeiras, auxiliares da rainha, babás de ovos e de larvas, “agricultoras” e “construtoras” das plantações de fungo e vigias.


Os soldados são formigas com a cabeça e as mandíbulas enormes. São encarregadas de proteger todo o ninho, e também as operárias que trabalham fora da colônia na coleta de folhas. Apenas raramente fazem o transporte de alimento ou larvas, quando o sauveiro está sob ameaça. Os soldados de saúva estão entre as mais fortes formigas.


Mas, além destas, começam a surgir em certas épocas do ano, quando a colônia de saúvas já se estabeleceu e tem por volta de três anos de idade, os indivíduos reprodutores, isto é, “rainhas” jovens (chamadas de “Içás” ou “Tanajuras”) e “reis” (os “Bitus”), machos que vivem apenas as horas necessárias para fertilizarem as fêmeas. Estas são as únicas formigas que possuem asas, e somente para um único vôo: a REVOADA.

Na primavera, quase que ao mesmo tempo, as colônias liberam milhares de içás e bitus para fora. É a revoada, ou vôo nupcial. De alguns sauveiros podem sair 45.000 bitus e 6.000 içás! Os bitus têm pouco tempo de vida para encontrar as içás. E estas já saem para a revoada levando uma “muda” do fungo que servirá para começar a plantação subterrânea das saúvas (veja em “A casa da saúva, sua alimentação e importância econômica”).


Se todas as içás, após fecundadas, conseguissem formar um novo sauveiro, a Terra seria dominada por formigas em poucos anos. Mas calcula-se que, com sorte, somente 0,05% das içás tem sucesso (como se, de cada 2.000 içás levantando vôo, só uma conseguisse criar um sauveiro maduro a ponto de fazer novas revoadas!).


Ninguém sabe exatamente como os diferentes sauveiros sincronizam as revoadas, mas sabe-se  quê: com muitas formigas voando ao mesmo tempo, os predadores não conseguem eliminar todas antes de ficarem empanturrados de formigas, e também há uma chance maior de içás e bitus de sauveiros diferentes se acasalarem, aumentando assim a variedade genética das saúvas.


E tudo se reinicia. Sozinha, a içá fecundada cava um buraco onde ficará para o resto de sua longa vida, o início da nova colônia, que só terá suas primeiras operárias depois de muitos dias. Só depois de 4 meses a primeira operária da colônia porá sua cabeça para fora da terra, outros tantos para que surjam soldados, e até anos para chegar a um tamanho facilmente observável para uma pessoa.


O sauveiro só acaba naturalmente quando sua rainha morre, mas isso só acontece após muito tempo. Algumas podem viver mais de 15 anos! Nenhuma outra rainha jovem ou operária pode substituí-la, ao contrário das abelhas. Mas mesmo depois da morte da reprodutora, o sauveiro pode sobreviver por meses. As revoadas dos anos anteriores terão sido herança desta rainha.


A casa da saúva, sua alimentação e importância econômica.

A saúva é uma formiga cortadeira, isto é, que corta folhas, cascas de frutos e outras partes de plantas encontradas para levar ao formigueiro. Mas esta não é sua fonte de alimentação. As saúvas usam todas estas folhas picadas como adubo para cultivar seu único alimento, um fungo (bolor) que cresce na matéria vegetal em decomposição.

Todo o sauveiro tem como objetivo permitir o desenvolvimento de novas formigas, inclusive para as revoadas, e cultivar o fungo. Como uma cidade, possui departamentos de trabalho divididos e operárias “especializadas” para cada atividade.

O sauveiro fica todo debaixo do solo. Apenas os sauveiros completamente desenvolvidos deixam aparecer um monte de terra solta, o “murundu”, em sua entrada principal. É a terra retirada para fazer os túneis subterrâneos onde as saúvas se locomovem e vivem.

Ao redor da entrada principal, por uma extensão que pode variar de alguns poucos metros para quase um quilometro, estão os “olheiros”, saídas secundárias dos túneis em direção às plantas que podem ser cortadas pelas saúvas. Um sauveiro pode ter mais de mil olheiros.

Muitos agricultores gastam inutilmente inseticidas nestes olheiros, se esquecendo que o murundu é o centro da colônia, e sob ele estão as suas partes principais: as “Panelas”, que se espalham por mais ou menos 60 m2 ao seu redor.

As panelas são espaços ocos onde as saúvas têm plantações de fungo, lixeiras, berçários etc. Cerca de meio metro abaixo do murundu de um sauveiro jovem, podemos encontrar uma panela principal. Nos sauveiros já maduros, não há uma de tamanho diferenciado que possa ser chamada de panela principal, e algumas podem estar a mais de 1,5 metros de profundidade. Em geral, as mais profundas e distantes do murundu são as lixeiras e são de todos os tamanhos. Em algumas, mal conseguiríamos colocar nossa mão, já em outras, podemos colocar um barril com folga. Algumas são encontradas vazias, prontas para receber plantações ou berçários para ovos, larvas ou pupas.

A partir das panelas saem túneis, alguns com centenas de metros de comprimento, que mantém as operárias protegidas pela maior parte de seu trajeto até as plantas de onde retiram as folhas. .A rainha fica em uma das panelas centrais, e está sempre cercada de centenas de operárias dedicadas a alimentá-la, limpá-la e recolher seus ovos para levar aos berçários. Conforme a necessidade da colônia, os ovos recebem diferentes cuidados até o estágio de pupa para que se tornem operárias ou soldados.

As “plantações” de fungo recebem as folhas trazidas pelas operárias transportadoras, enquanto as saúvas agricultoras têm como função mascar e arrumar os restos vegetais em estruturas semelhantes a “esponjas”, onde os fungos desenvolvem-se. Na colônia existem também as saúvas que agem como “garçons”, que alimentam com esses fungos os soldados, a rainha ou outras operárias que estejam ocupadas.

Aquilo que não é aproveitado, assim como dejetos e formigas mortas, é levado para a panela de lixo. Ali, vivem vários outros animais, como lagartixas, aranhas e besouros, que se aproveitam do lixo das formigas para obter alimento. Quando cheia, uma lixeira pode ser fechada e abandonada. Há ainda panelas para terra, já que nem sempre é possível levar para fora o material dos túneis.

Um sauveiro completamente desenvolvido pode conter mais de 4 milhões de insetos! Assim, a quantidade de folhas que necessitam para manterem-se é enorme. Sem inimigos naturais (como cobras-cegas, tamanduás, tatus, aranhas, besouros caçadores, aves e lagartos) e com disponibilidade de plantas frágeis ou em condições de estresse fisiológico, como as que são encontradas nas plantações, as saúvas multiplicam-se enormemente, e fazem grandes estragos em culturas como as do café, cana-de-açúcar, capim, milho, eucalipto e outras tantas.

Por causa disto, as cerca de dez espécies de saúvas brasileiras são vistas como “pragas indestrutíveis” por muitos agricultores até hoje. Uma frase de um famoso cientista, Auguste de Saint-Hilaire, virou até ditado popular: “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúda acaba com o Brasil”. A frase foi repetida por personalidades como Rui Barbosa ou a personagem “Macunaíma”, de Mário de Andrade, que acrescentou que “pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são”. Acrescenta-se que a picada da saúva é muito dolorida.

Tal perseguição fez com que uma das espécies, a saúva-preta (Atta robusta) das restingas do Espírito Santo e Rio de Janeiro, ficasse ameaçada de extinção!
As saúvas preferem as plantas de solos pobres ou sem ecossistema desenvolvido, agredidas por poluição, ferimentos, doenças ou outros fatores ou ainda de mudas ainda fracas ou grandes árvores em decadência. Assim, ela mantém o equilíbrio natural, não se proliferando em demasia em condições ambientais perfeitas, mas também se tornando parte do desequilíbrio quando a vegetação ao seu redor encontra-se sob condições insatisfatórias.

O controle da saúva foi e é alvo de muitos pesquisadores. Alguns, defendem o uso de mais e mais inseticidas, outros, buscam produtos que não façam mal senão às saúvas. Há uma busca por soluções que envolvam não apenas as plantas cultivadas, mas também plantas repelentes de insetos e os inimigos naturais da saúva.

Hoje em dia, a visão que temos dos sistemas naturais e da ciência da ecologia, avançou muito. Temos como desafio encontrar o ponto de equilíbrio entre nossas necessidades e as necessidades da fauna e da flora que nos cercam. E a saúva também faz parte desse equilíbrio. Podemos aprender com elas, usar seus dotes no controle de plantas daninhas e invasoras além da recuperação do solo desgastado pela agricultura, com suas panelas de lixo e túneis.

Se a saúva não acabou com o Brasil, também os brasileiros não podem fazê-lo na tentativa de acabar com a saúva.

O sauveiro (artificial)- cuidados e visitas




O sauveiro nasce de uma rainha já fecundada, capturada depois de uma revoada na natureza. Apesar de simples na aparência, o lar das formigas tem seu ambiente interno rigidamente controlado por elas, com túneis de “ar-condicionado”; manutenção de umidade, serviço de limpeza e reforma das passagens, dentre outros. E tudo isso é feito pela rainha sozinha, antes da formação do sauveiro. Sem os menores fatores funcionando perfeitamente de acordo com sua natureza, o formigueiro pode entrar em decadência, matando todas as suas integrantes rapidamente.

Imitar as condições que as saúvas conseguem criar dentro de seus ninhos, em uma série de potes de vidro, é o maior desafio para a manutenção adequada das formigas mostradas ao público que visita o SAUVEIRO.

Em cativeiro, as panelas são substituídas por grandes potes de vidro, que são divididos, como na natureza, por função. Há potes onde são colocadas as folhas que serão cortadas e levadas pelas formigas para um outro tipo de pote, em que são cultivados os fungos e ficam os “berçários” das formigas, e enfim há aqueles que servem como lixeira.

Todas estas “panelas artificiais” são interligadas por um conjunto de tubos de vidro e telas metálicas, que permitem a visualização das atividades entre as panelas e ao mesmo tempo, auxiliam na ventilação interna do sauveiro. Observando bem, é possível identificar os diversos tipos de operárias cumprindo cada uma sua função específica, as saúvas “soldado” fazendo a vigilância, e às vezes até mesmo a rainha atravessando de uma panela para outra, a fim de encontrar novos lugares para continuar a postura de seus ovos.

As telas metálicas precisam ser substituídas periodicamente, pois os dejetos das formigas são corrosivos e após algum tempo começam a danificar a malha de metal fina. Se não for feita a troca, algumas formigas podem escapar e prejudicar a organização da colônia.

Duas vezes ao dia são colocadas folhas novas para o corte e formação de “plantações” de fungo no interior das panelas. Plantas como a pata-de-vaca (Bauhinia variegata), o hibisco (Hibiscus spp.), a alcalifa (Providencia alcalifa), o alfeneiro (Ligustrum spp.), a rosa (Rosa spp.) e algumas outras são utilizadas para este fim.

As plantas fornecem uma boa parte da umidade exigida pelas formigas, mas mesmo assim é preciso fornecer complemento para que os níveis de vapor d’água fiquem dentro do ideal para as saúvas - acima de 65% de umidade relativa do ar. Também a temperatura é crucial: se baixar demais (abaixo de 19 graus centígrados), o formigueiro começa a diminuir perigosamente sua atividade. Mas é ainda pior se aumentar demais, já que acima de 25 graus, o comportamento das formigas pode se alterar a ponto de inviabilizar a sobrevivência de toda a colônia! Lixo é jogado nas plantações, fungos são plantados nos tubos de passagem, ovos são jogados fora, panelas de plantação são abandonadas...

Manter esses parâmetros é a principal dificuldade em manter um formigueiro artificial. As visitas são rigorosamente controladas, com horário e quantidade máxima de pessoas por sessão muito bem planejadas, para que não sejam abalados elementos tão importantes para a vida das saúvas. Até a iluminação precisa ser controlada, pois na natureza as formigas fazem todo o seu trabalho no escuro, guiando-se pelos cheiros.

As  panelas com fungos e as  de folhas que compõem o sauveiro são limpas pelas próprias formigas, mas é necessário que as panelas “lixeiras”, sejam esvaziadas de vez em quando. A água que se condensa no interior dos vidros também é seca com panos diariamente, pois caso pingue sobre os fungos prejudicará seu crescimento.

Como não é possível usar produtos químicos no ambiente do sauveiro, são tomados diversos cuidados para evitar a proliferação de ácaros, aranhas e outros animais que poderiam trazer transtornos.

As pesquisas mais atuais sobre saúvas produzidas por biólogos, institutos de pesquisa agronômica e de entomologia (ciência que estuda os insetos) e publicadas em livros e trabalhos científicos são consultadas, a fim de garantir uma manutenção cada vez mais adequada e a exibição mais fiel de um sauveiro ao público.

Ainda não é possível reproduzir, em cativeiro, as condições exigidas para que aconteça uma revoada. Mas mesmo assim o sauveiro já contribuiu com pesquisas de diversas instituições, com dados sobre o desenvolvimento da colônia, o papel ecológico das formigas cortadeiras da América do Sul, as substâncias medicinais existentes no fungo criado pelas formigas, além de treinamento e formação de equipes de trabalho... mas principalmente, ensinando a milhares de pessoas o universo destes animais fantásticos.
Texto: Material de aula.
João Ângelo Cerignoni  - Técnico de Laboratório _ ESALQ/USP/Piracicaba





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