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sexta-feira, 25 de julho de 2014

A incrível metamorfose da Phoebis sennae.


BORBOLETA, UM SER QUE NASCE E RENASCE


Exceto pela cor, um ovo de Phoebis sennae – Lepidóptera da família Pieridae, ou melhor, uma pequena borboleta,  teria pouca chance de chamar atenção.




A postura é intensa, ovos são depositados durante alguns dias e em praticamente todos os botões, brotações e flores.
Como sinalizado pelo próprio nome, a Senna é a planta hospedeira da Phoebis sennae.





Nas primeiras idades, a lagarta se alimenta das folhas jovens e ao crescerem passam a dar referência pelas  flores. Neste momento, o mimetismo funciona bem pois as lagartas tornam se amarelas e se confundem com as flores. Normalmente há mais flores caídas e perdidas pelo chão do que as consumidas por duas ou três lagartas.






Passado mais alguns dias, anéis escuros surgem pelo corpo da lagarta. E uma dúvida: a flor da Senna não dura muito na árvore e o momento em que se desprende não parece ser tão “previsível”. Embora uma lagarta talvez tenha apurado sentidos para tal, espantou-me a tranquilidade com que repousava e se alimentava sobre as flores, como se este fosse o local mais seguro do mundo. O mistério foi resolvido ao observar que as flores que haviam sido quase totalmente devoradas continuavam alí penduradas: a lagarta faz alguns percursos rodeando a flor, pedicelo e galhos deixando uma teia bem fina que serve de sustentação. A engenharia sustenta a flor de forma a não deixá-la cair mesmo após murchar, com o peso da lagarta e ainda sob ventos. Parece que aí reside a confiança da lagarta em deleitar-se sobre flores que, de outro modo, logo estariam no chão.
Abaixo, um indivíduo mais novo. A floração que ainda resta é bem pequena e, tendo sua irmã como concorrente, não parece que sobrarão flores suficientes para alimentá-la …





Mais alguns dias e a lagarta está completamente transformada: agora é uma crisálida (pupa). Engenharia, química, camuflagem (mimetismo), profundas transformações ocorrem em questão de horas. Não bastasse o intenso e complexo processo de transformação que o organismo terá de cumprir, ainda há codificação genética para que a crisálida tenha semelhança externa da própria folha de Senna (forma, textura e cor).



Sob luz artificial o mimetismo desaparece: a crisálida brilha de forma intensa, destacando-se da folhagem.
Examinando um pouco mais de perto a transformação da lagarta em crisálida…
O relógio biológico dispara seus sinais e então a lagarta terá pouco tempo para completar suas duas últimas tarefas: encontrar o local ideal para fixar-se e efetuar sua última “muda” (troca do exosqueleto), que culminará na formação da crisálida.




Por meio de uma substância adesiva resistente, a lagarta fixa-se ao ramo pela parte traseira. Pela parte dianteira, tece um “laço” também fixado ao ramo e envolvendo-a aproximadamente pelo meio. Controlado por hormônios, o processo de muda e formação da crisálida terá início. Os anéis listrados descolorem rapidamente enquanto todo o corpo da lagarta começa a ser alterado de forma abrupta.




Um rápido crescimento celular na região ventral logo abaixo da cabeça tem início. Ele toma a forma de uma “bolha” que logo percebemos ser a região que encapsulará as futuras asas. Essa é a mesma formação que mimetiza (camuflagem) a folha da planta. A postura inicial, se entendida como côncava, torna-se convexa. Desaparecem as pernas, forma-se completamente a cápsula que conterá as asas, uma ponta surge onde era a cabeça e no dorso (agora côncavo) forma-se a região que conterá as futuras pernas. Todo o processo ocorre em cerca de 3 horas.



Agora vem a parte complicada...

O hormônio, responsável por iniciar o vertiginoso processo de mudança, ordena a fabricação de sucos digestivos que literalmente destroem grande parte do corpo da lagarta, transformando os órgãos internos em uma matéria cremosa: é a histólise. A histólise gera assim nutrientes, mas mantém vivas células não diferenciadas, os histoblastos.



Os histoblastos  iniciam o processo de reconstrução do novo corpo: é a histogênese. Os nutrientes gerados pela histólise serão utilizados na histogênese.



A morte da lagarta dá inicio à vida da borboleta.


As intensas alterações ocorridas parecem agora dar lugar à calmaria. Nesta fase, a capacidade de movimentar-se é reduzida ao mínimo e o que se vê seria bem melhor descrito como uma folha que qualquer outra coisa.
Bem, isso é o que parece. Uma fina camada separa sua aparente calma exterior de um conturbado e frenético mundo interior. Os últimos sete dias marcaram profundas mudanças. Mudanças que irão alterar o habitat e todo estilo de vida de até então. Novos órgãos foram criados, todos desenhados para cumprir a dura tarefa de sobreviver e perpetuar-se no novo mundo. São asas, aparelho sugador especializado para o néctar, sensores nas patas, antenas ultra-sensíveis, olhos compostos e que enxergam ultravioleta, desenhos identificadores do gênero e de alerta e a capacidade de reprodução.


A dois dias da emergência do adulto, as asas tornam-se opacas, marcando o início do processo de coloração e maturação. Também os olhos escurecem. A membrana da (pupa) começa a ficar translúcida. Já é possível ver as asas praticamente formadas através dela.



Quanto tempo leva uma lagarta para voar? (O ciclo)
Infinito para ela, nove dias para nós. A natureza reserva ainda alguns segredos antes de libertá-la da Pupa: aguarda a chegada das horas mais serenas da madrugada, para evitar os algozes.
Um par de horas antes a membrana torna-se cada vez mais translúcida até que a linha de ruptura se parte.
Esgueira-se por aí a mais nova borboleta do mundo.


Aqui ou em qualquer outra parte do planeta, as Phoebis spp. cumprem, da mesma forma, mais uma de suas fases, geneticamente traçadas. Responde ao vento como uma folha. Assim, o ser que nasce duas vezes aguarda a distensão e consistência das suas asas.






São três horas. Em mais três experimentará o primeiro vôo.




Fonte (principal): http://en.wikipedia.org/wiki/Metamorphosis
- A metamorfose da Phoebis sennae é dita completa (holometabolismo)

- Para quem quiser acompanhar praticamente todo o processo, sugiro ver o

E se quiser ver ao vivo, plante uma Senna!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Metamorfose:

 A Beleza e a Morfologia das Borboletas





Se abrir um trabalho de um Entomólogo, ou lepidopterologista, alguém que estuda as borboletas, algures nesses escritos encontrará a língua do espanto. Cada uma das 20.000 espécies existentes têm diferentes padrões de cores e cada uma delas tem diferentes formas de asas. A diversidade é simplesmente tão magnífica. 

Ao observar uma borboleta, ao descrever aquilo que estamos a observar, que não  é possível traduzi-lo em palavras. Isso é biologia, mas é também magia. 

UM CICLO DE VIDA DE MISTÉRIO E MARAVILHA 

É impossível olhar para uma lagarta que se transforma numa borboleta e não perguntar "como?". A sua metamorfose, o seu ciclo de vida... Como é que isso acontece? Esta extraordinária e espantosa transformação? Num inseto metamórfico, aquilo que existe são dois planos corporais. Primeiro, ele tem de formar um corpo funcional e, em seguida, terá de mudar de funcionamento e assumir a forma de um novo corpo. 

Fico impressionada com o desenvolvimento, quando passa de ovo a lagarta. Porque se trata de um processo tão intrincado. Mas, depois, o inseto entra na fase de crisálida e terá de acertar, mais uma vez. Então, é como se fosse o problema ao quadrado. 

DENTRO DA CRISÁLIDA, A MORTE É O CAMINHO PARA A VIDA. 

O inseto tem de se livrar ou digerir os tecidos da lagarta; eles não servirão para o adulto. Na verdade, as próprias células desaparecem, sendo de seguida os seus componentes reciclados e transformados numa espécie de sopa, na qual se basearão as estruturas do adulto. É muito cuidadosamente projetado. O inseto tem de saber onde tudo termina, antes de começar.

UMA TRANSFORMAÇÃO MILAGROSA. 

É como se fosse um organismo diferente; as transições têm de realizar-se no coração; as transições têm de realizar-se nas antenas; as transições têm de realizar-se nos órgãos reprodutivos. As pernas do adulto terão de ser recriadas, as antenas, os olhos; tem de se alterar a forma do cérebro e as ligações entre as antenas e os olhos, o intestino tem de ser remodelado, de forma a passar de digerir matéria vegetal para a ingestão do néctar.

Começa-se a vislumbrar a profundidade do problema... Então, para a evolução ter criado este tipo de transformação, gradualmente, teria sido necessário um milagre.

Paul Nelson - Filósofo de Biologia 

Quando observamos certos efeitos na natureza, é responsabilidade do investigador encontrar as causas que expliquem os efeitos. Se observasse um dispositivo mecânico com a sofisticação das borboletas, você não hesitaria nem por um instante em atribuí-lo a algum tipo de inteligência.

Porque a borboleta é tão mais sofisticada, que está quase além da nossa compreensão, em qualquer coisa que nós possamos fazer... O planeamento, a visão, a arte, a engenharia... Se processar todas as provas reveladas através da metamorfose e depois se questionar, com base na sua própria experiência, que tipo de causa poderia obter estes resultados… Acho que a única resposta razoável é a de uma inteligência que transcende o mundo natural.